14/09/2018

[Crítica] Doutor House


Boa Noite!! Hoje temos mais um crítica escrita pelo nosso colunista Arian que escolheu trazer um texto bem bacana sobre a série Doutor House 💉

Doutor House
Este texto não tem subtítulo, pelo simples fato de eu não ter encontrado em meu léxico mental os adjetivos corretos ao predicado que “Doutor House” merece. A série foi exibida pela rede americana Fox entre 16 de novembro de 2004 e 21 de maio de 2012. Oito anos nos quais acompanhamos, em oito temporadas e sento e setenta e sete episódios, a vida de Gregory House, um médico genial, viciado num analgésico fortíssimo para controlar a dor extrema de sua perna lesionada. Oito anos nos quais acompanhamos o personagem mais irônico, sarcástico, maquiavélico e apaixonante da televisão. Oito temporadas que levaram “House, M.D” ao hall da fama.

House é um médico conceituado do estado de Nova Jersey, nos EUA. Além de conseguir elaborar excelentes diagnósticos. Especializado em nefrologia e infectologia, House é o diretor do departamento de Diagnóstico do Princeton-Plainsboro, um moderno – e fictício – hospital universitário público norte-americano. House só aceita casos que nenhum outro médico conseguiu resolver, ou conseguiria; e casos interessantes. Sim, casos. Para House o paciente mais atrapalha do que ajuda, e tudo o que o interessa é o enigma.



Criada por Dvid Shore, a série traz a inspiração no personagem mais intrigante dos romances de mistério. Sherlock Holmes. Assim como Holmes, House tem uma percepção e um poder observativo fora do comum, como se pensasse além da caixa, ligando os pontos que ninguém jamais faria, impulsionado por acontecimentos ao seu redor.

Bem como Homes, House é viciado, não em tabaco, mas em vicodin. Assim como Holmes, House é antissocial, beirando a sociopatia funcional. House e Holmes compartilham alguns interesses em comum. Ambos são músicos, ambos vivem no endereço 221-B, e tanto o detetive detestado pela New Scotland Yard, quanto o médico que faz da vida no Princeton-Plainsboro um caos, têm um amigo leal, o único que consegue entendê-los e acompanhá-los por décadas. Doutor Wilson para House, um oncologista com empatia aguda e extrema paciência e otimismo. Doutor Watson para Holmes.

Visível a inspiração de Shore nas obras de Sir Arthur Conan Doyle, não? Elementar meu caro Watson.

Como a série leva o nome do protagonista, não podia deixar de começar por ele. House é interpretado por Hugh Laurie. Um ator, multi-instrumentista e escritor inglês. Hugh Laurie certamente pegou todo o pacote de talentos destinado ao hospital em que nasceu para si.

Ainda sobre a atuação fantástica de Laurie, merecedora e ganhadora de alguns prêmios, é visível um comportamento descendente desta. Não da qualidade, mas da vontade. O próprio ator em entrevistas comentou sobre o declínio de sua vontade em filmar as últimas temporadas, mas chegaremos lá. Por hora, basta dizer que foi Hugh Laurie quem transformou “House, M.D” no sucesso absurdo que é a série, mesmo seis anos após seu encerramento.

O encerramento da série foi algo natural. Um término do roteiro, bem casado com as demais temporadas, e também uma diminuição de audiência. É o destino de todas as séries longas. Assim foi com CSI, outra inspiração para David Shore compor sua obra de arte.

A primeira temporada começa, obviamente, com um episódio piloto, intitulado “Everybody lies/Todo mundo mente”. A frase é um bordão de House, lado a lado com “It’s not Lupus”. No primeiro episódio acompanhamos e descobrimos a estrutura narrativa que compõe todos os episódios – ou quase todos – e as personagens principais. Aquelas que ficam até o final. Já chegaremos neste aspecto.

Quase todos os episódios começam fora do hospital, em aberturas do gênero cold open, com pessoas anônimas apresentando um ou vários sintomas de uma doença tratada em cada um desses episódios. House e a sua equipe iniciam o diagnóstico diferencial – onde a equipe médica tem um braimstorm de diagnósticos, apenas para acharem um que se encaixe – de um paciente apenas quando o diagnóstico deste falha nos outros hospitais ou durante situações de urgência de Plainsboro, tornando os casos complexos. Apesar de serem raras, as doenças são reais.


Os sintomas conhecidos são enunciados e escritos no quadro branco em que são deliberadas várias doenças ou outros sintomas que vão surgindo, afinal “todo mundo mente”, mas “os sintomas nunca mentem”. Tratar os sintomas, chutando a doença, e muitas vezes – em todos os episódios – piorando o quadro do paciente antes de House, milagrosamente descobrir o diagnóstico faltando menos de dez minutos ao final do episódio, e só então visitando o paciente.

No primeiro episódio conhecemos o Doutor James Wilson, melhor amigo de House, o único que atura e gosta do temperamento do médico genial. E aqui vai o fio tênue entre a percepção de um espectador e a proposta de um roteirista. Wilson é a primeira personagem que vemos falando com House, pedindo que este aceite o caso de uma professora, que no final do episódio tinha tênia por comer presunto de origem incerta. Pois é, grandes mistérios médicos de um país de primeiro mundo, no Brasil seria o primeiro palpite. Wilson é a primeira personagem a falar com House, e também é a última, na última cena do episódio final. House e Wilson, sempre juntos, ainda que muito tenha ocorrido em 177 episódios.

Nos 177 o espectador é apresentado a sintomas e doenças raras e comuns, numa linguagem médica que independentemente de sua fluência em inglês é recomendado assistir com legendas. Contudo você não se prende ao jargão médico, pois entre eles há a fina e macia ironia de House, mesclada ao concomitante dialogo pungente e de cunho pessoal entre as personagens principais e coadjuvantes que interpretam os pacientes.

Muitos destes coadjuvantes tiveram em House a janela necessária para tornarem-se conhecidos da mídia de grande público. Entre eles Jeremy Renner, o intérprete de Gavião Arqueiro no universo Marvel tão aclamado pelos adolescentes e jovens adultos, interpreta um punk no nono episódio da quarta temporada.

Outra personagem, não tão protagonista, mas também não tão principal, é a esposa de House. O casamento de fachada de House com Dominika Petrova, interpretada pela belíssima e carismática Karolina Wydra, é motivado pelo Green Card pretendido pela estrangeira. Contudo, o crime contra o governo, se desenrola de um modo afetivo. Dominka realmente se apaixona por House, e vemos uma mudança de personalidade no médico, mesmo que curta, quando o homem adepto de prostitutas, contando com uma lista de aparições e citações nos episódios, se vê tentado a desenvolver um relacionamento com a mulher com a qual, afinal já é casado. Mas estamos falando de House, e ele consegue estragar todo e qualquer tipo de relacionamento.

Porém são as protagonistas que fazem nossos olhos. Já passamos por Wilson, vivido por Robert Sean Leonard, porém é no primeiro episódio que conhecemos o restante das personagens que baseiam a vida de House, retornando até mesmo no episódio final, o magnífico e fotográfico “Everybody dies/Todo mundo morre”.

Lado a lado com Wilson, em todas as oito temporadas, há Eric Foreman, interpretado pelo já famoso Omar Epps. Um neurocirurgião, primeiro encarregado de House, e posteriormente, na oitava temporada, o chefe de House, assumindo o cargo de reitor de medicina e diretor do hospital. Foreman compartilha com Wilson o papel de consciência de House, porém ao contrário de Wilson, Foreman é moldado pelo médico genial, e aos poucos vai absorvendo ao seu caráter o jeitinho de House.

Doutor Robert Chase, vivido pelo também aclamado Jesse Spencer, é o antônimo de Foreman e Wilson. Quase sempre concordando com House e seus métodos nada ortodoxos de medicina. Chase é um ex-seminarista, que por pouco não se tornou padre. Especializado em medicina intensiva, é um excelente cirurgião, com seus diagnósticos evoluindo em acurácia e fineza até o final da oitava temporada, onde assume o cargo de House. Em Chase a série encontra seu primeiro e principal dualismo. A razão contra a emoção. Um australiano filho de um famoso e rico médico, é mulherengo, puxa-saco, mas, ainda assim, em constante duelo entre sua personalidade e a de House.

Acompanhando e fechando a equipe que fica com House até o final da terceira temporada, há Allison Cameron, interpretada por Jennifer Morrison, que deixou a série médica para atuar em outra bem sucedida e aclamada. Morrison deixa House como regular para protagonizar “Once upon a time/Era uma vez”. Contudo é Morrison que traz a House, em sua personagem, o amor.

Cameron é uma imunologista, abertamente apaixonada por House, que vê sua personalidade certinha moldada após seu casamento com um paciente terminal. É deixado explícito que Cameron só se apaixona por pessoas problemáticas, à beira da morte, com a intenção de cuidar deles.

Já que comentei de amor, antes de passar as demais personagens e desdobramentos da série, trago o leitor à personagem mais complexa, após o próprio House, que a série nos mostra. Além de sua ex-mulher, Stacy, a advogada do hospital, há também a Doutora Lisa Cuddy, diretora do hospital, a única chefe que House já teve que consegue suportá-lo, e mantê-lo em linha.



Cuddy, vivida por Lisa Edelstein, fica na série até a sétima temporada, onde no último episódio há o clímax da relação entre ela e House. Sete anos após o começo da série. Sete anos em que House demonstrou seu afeto e desejo por Cuddy.

Afeto recíproco, culminando num fracassado relacionamento entre a superprotetora Cuddy e o egoísta House na sétima temporada. Cuddy e sua personalidade embebida em maternidade e cuidado intensivo, beirando a compulsão, deixam a série na oitava temporada, mostrando que de fato as coisas mudaram assim que House sai da cadeia. Cuddy e Wilson estiveram por House quando ele foi internado para se tratar – falaciosamente – do vício em Vicodin/Hidrocodona, mas apenas Wilson está por House quando seu caráter criminoso e autodestrutivo é de fato revelado. É na metáfora da saída de Cuddy que se inicia o declínio da vida de House. Mas, pararei de dar spoilers. O show é maravilhoso, e há ainda muito o que falar.

Alguns parágrafos antes comentei que Cameron fica na equipe House até a terceira temporada, pois a quarta começa com House sozinho, precisando montar uma nova equipe a mando de Cuddy. Para isso o médico, que não perde uma oportunidade para apostar, jogar e azucrinar a vida alheia, monta um concurso, reunindo alguns dos médicos com melhor currículo. Ao longo da quarta temporada são selecionados alguns, a maioria vai embora, não sem antes deixar muito enredo e pano para a manga.

Uma destas personagens é Amber Volakis, ou carinhosamente conhecida como “Vadia”, por Hosue. A personagem vivida por Anne Duke não forma a equipe, mas forma um relacionamento problemático com o já três vezes divorciado Wilson, e posteriormente um relacionamento perturbador com House.

Os que ficam para formar a equipe de House são Chris Taub (Peter Jacobson), um cirurgião plástico descontente e com uma vida tão conturbada que é impossível para House não caçoar dele. Taub e seu relacionamento constroem a série a partir da quarta temporada de um modo mais lúdico.

Compondo a equipe, juntamente a Taub, e Foreman, há Remy “Treze” Hadley, papel de Olivia Wilde, a mulher adorada por Hollywood pelos olhos e pelo talento descomunal. Em House, Treze é uma médica decidida e uma mulher independente, bissexual assumida, que tenta um relacionamento fracassado com Foreman. Contudo Treze sofre de Huntington, uma doença degenerativa, e dará a House a oportunidade única em sua vida de demonstrar altruísmo.

Outro personagem introduzido na quarta temporada, e que se mantém até o final da quinta temporada, é o ousado e engraçado Lawrence Kutner (Kal Penn), que trouxe à série a personificação da saturação da influência de House na vida de alguém. Kutner não aguenta a pressão e comete suicídio, num momento conturbado para House, onde se vê preso em seu vício. Eu mencionei que não daria mais Spoilers. Pois é, todo mundo mente.

Ao longo da série personagens vêm e vão, como a simpática, ingênua e ainda jovem ansiosa para ter sua personalidade e currículo moldados por House, Chi Park (Charlyne Yi) e a bela e inclinada a mudar o mundo Jessica Adams (Odette Annabele). Mas apenas a dor e o vício de House estão presentes.

O vício mudou sua vida, a dor o mantém funcional. House precisa da dor, a cultiva, como escape de sua realidade que machuca. Sem a dor, não há House, e sem House não haveria uma das melhores séries já produzidas pela televisão norte-americana.

Todo mundo mente, todo mundo morre. Mas é a personalidade de um médico genial, sarcástico, ateu e socrático que transforma as afirmações que modelam a série em premissas cativantes e hipnotizantes,  tornando impossível não gostar e odiar o personagem de Hugh Luarie.

A série, para quem ainda não assistiu, fica na Netflix até dia 15 de setembro, mas é constantemente reprisada no canal a cabo, Universal. A série, para quem já assistiu, é uma paixão, uma vida metaforizada em 177 episódios. Começo, meio e fim. Altos e baixos, afinal a série leva o nome da personagem principal. Com House você chora, ri, tem vontade de xingá-lo e abraçá-lo, simultaneamente. Mas ao final de cada episódio, você suspira e agradece à sétima arte.

Ainda não encontrei predicados para “House, M.D”, mas tenho a certeza que será sempre a aclamada e extraordinariamente bem-feita “Doutor House”, sem a necessidade de qualquer subtítulo.

Para fechar, deixo uma frase de House, que revela parte de sua personalidade irônica e desafiadora. Afinal, o que não é interessante, não vale a pena ser questionado.

O que você pensa sobre mim não vai mudar quem eu sou, mas pode mudar o meu conceito sobre você.


2 comentários:

  1. Não terminei de assistir House, parei acho que na quarta temporada, mas esse é um dos personagens mais sarcásticos e incríveis que já conheci. A trama possui sempre aquele conhecido doença-corre para achar uma solução-o personagem sempre consegue vir com algo extraordinário e que cura. Mas... é impossível não ficar animado por cada episódio, confesso.
    Adorei sua crítica, ficou perfeita! Que pena saber que logo mais já sai da netflix.
    beijos

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  2. Olhando essa publicação tive até vontade de rever a série <3
    Eu tive o prazer de ir no show dele aqui no Brasil e fiquei ainda MAIS apaixonada por ele hahaha

    Sai da Minha Lente

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