26/04/2018

[Texto] Poema ou poesia? O quer o poeta?


Boa Noite!! Tenho certeza que vocês já se perguntaram a diferença de Poema e Poesia e hoje nosso colunista Arian trouxe uma texto incrível com uma forma de como diferencia-las 😉

Poema ou poesia? O quer o poeta?
Poema ou poesia? Eis a questão de como chamar seu texto. A resposta depende de alguns fatores de estrutura que você, certamente, já se deparou nas aulas de literatura, afinal ambas pertencem ao gênero lírico. Não tentarei, jamais, encontrar uma resposta, apenas entusiasmar mais perguntas. Para diferenciá-las, escolhi alguns de meus textos, tanto poemas quanto poesias, para exemplificar; e, obviamente, o que se refere à técnicas e conceitos de língua foram pesquisados. Felizmente, ao poeta, sente-se tudo, mesmo que não se conheça.

Começaremos do mais abrangente: a poesia. Você já se deparou com um poético pôr do sol, ou com uma tela do Romantismo repleta de poesia, entretanto o que certamente nos atinge diariamente com poesia são as músicas, sejam as mais simples em letra como hits de carnaval cantados sobre um trio elétrico, ou uma elaborada do Pink Floyd, pois poesia é a criação.

A palavra tem a mesma origem em todas as línguas indo-europeias. A versão portuguesa da palavra vem do latim, que por sua vez – como basicamente tudo o que se atribui à civilização Romana – veio do grego clássico. Poesia significa, etimologicamente, criação artística, e sem aprofundar-me na grande seara sobre o que é ou não arte (quem sabe num próximo texto) adotarei uma definição de arte enviesada pelo iluminismo. Arte, como ramificação da estética, é aquilo que causa sensação, atiça emoções de qualquer adjetivo, e é necessariamente, feita pelo homem. Dessa forma deixamos de fora uma bela aurora boreal, um rosado alvorecer e um belo céu estrelado numa cidade com poucos habitantes.

Poesia é, numa primeira aproximação, o conteúdo. É o pensamento do autor, é o que causou-lhe um arrepio, uma lágrima, o que está sendo, ou tentando ser, expresso pelas palavras, pela pintura, pelo arranjo dos acordes. Numa forma escrita, poesia não é presa por regras, por forma ou qualquer amarra. Escrever poesia é, ao meu ver, deixar o sentimento guiar a pena, escorrendo a tinta sobre o papel sem olhar para trás e corrigir concordância ou afins. Entretanto, nada impede que a poesia tenha rimas, seja estruturada em versos, afinal nada impede a poesia.

A poesia a seguir possui estrofes, e assim versos, algumas rimas e metáforas, entretanto, não é um poema, vejamos após ela o porquê.

Sete palmos, quatro ventos

Senti seu aroma inicialmente,
numa manhã veraneia.
Senti meu medo finalmente,
naquela noite de lua cheia.

Olhei o astro imponente,
e de impotência fui tomado
mesmo no amor dormente
há gélida reciprocidade em si calado.

Viajei com os quatro ventos,
para buscar frágil pluma
e encontrando-a morta,
esbravejei aos mares lentos.

A corrente ultrajante, virou.
Levou sua nau à outra praia,
e em minha mão a pluma despedaçou
por ser frágil mas não bela.

Aproveitei as areias e o vento calmo.
Calmo pois o esgotei.
Com as areias me enterrei,
Sete contados palmo a palmo.

O sentimento imortal tolheu-me.
Vivi eternamente desde então.
Buscando entender das brisas ao furacão,
para culpar o amor a perder-me.

Se esse texto (acima) não se caracteriza como um poema, o que se caracteriza?
Bom, um poema é uma equação da língua, para delírio de Blaise Pascal e René Descartes, que eram tanto matemáticos quanto filósofos. Uma equação é assim nomeada pois iguala dois termos. Uma equação perfeita é igualada a zero, no que chamamos de balanço. Um poema é uma equação incompleta, esperando o que vem após do sinal de igualdade, e o que vem após o sinal de igualdade é a poesia.

Poema é feito de métrica, e a métrica engloba as rimas em seus mais variados tipos, os versos em sua separação silábica, o número de estrofes, e, especialmente, o tipo de poema. Já que fiz a analogia com uma equação, vejamos uma das equações mais bonitas da matemática: a identidade de Euler.  (e^πi) + 1 = 0. Se tirarmos a soma da exponencial com a unidade, temos apenas a igualdade de zero, sem forma, sem nenhuma formalização, mas ainda assim angustiante, há-se, então, a poesia.

Poema é feito de métrica, e o primeiro passo da métrica são os versos, pois existem diferentes tipos de versos, caracterizados pela quantidade de sílabas poéticas, que é diferente de sílabas fonéticas. Como regra básica, não se conta a última sílaba da última palavra no verso, e vogais consecutivas pertencem a mesma sílaba poética. Entretanto existem recursos que guiam essa conta.

O mais usado é a Sinalefa que consiste na junção de duas sílabas numa só, por elisão, crase ou sinérese,  e muitos outros recursos que recomendo pesquisa e estudo. Por hora veremos um exemplo prático, com um verso tão conhecido que desconfio que lerá no ritmo de certa música da Legião Urbana, mesmo que o autor seja Camões, considerado por muitos o maior poeta de língua portuguesa.

Amor é fogo que arde sem se ver.” Quando separamos poeticamente suas sílabas: “A\mor é  fo\go que ar\de sem se.” temos dez sílabas poéticas. O verso é o primeiro de um soneto construído em versos decassílabos heroicos. Decassílabo pois tem dez sílabas, e heroico, pois tem sílabas tônica na sexta e na décima posição, com uma ou mais sílaba tônica em qualquer posição. Soneto, porque o poema como um todo é composto de dois quartetos (estrofes com quatro versos) e dois tercetos (estrofes com três versos).

É, portanto, a classificação do verso que dará o tipo de poema. Os versos clássicos variam de Monossílabos, com apenas uma sílaba, ao Alexandrino, com doze sílabas poéticas. Há o verso bárbaro, com mais de doze sílabas poéticas, entretanto é pouco usado em língua portuguesa e nas românicas, sendo mais aplicado nas línguas de caráter germânico, como Alemão, Holandês e Sueco.

Os versos de um poema devem, obrigatoriamente, rimar, seja internamente num mesmo verso ou não, mas precisam rimar entre si, com alguma parametrização. Assim, existem tipos de rimas, desde de rimas fáceis, até rimas raras e ricas, feitas com palavras raras e de difícil emprego.

Existem ainda formas de ligar esses versos, seja com ponto final, ou enjambement, que conecta a ideia do verso atual ao seguinte, contudo a forma mais óbvia, e assim, necessária para que seu poema seja um poema, é haver figuras de linguagem, sejam metáforasanalogiaseufemismoshipérbolesvale a criatividade.

Sabidos e dominados os tipos de versos e rimas, compreende-se os tipos de poemas. Talvez um dos mais famosos seja a Ode, na qual há um caráter de glorificação, ovação e enaltecimento a um indivíduo, lugar ou objeto. Uma Ode é composta de versos de seis sílabas, ou de dez. Deixo abaixo uma ode que fiz em decassílabos heroicos.

Ode àquela sorridente

És de tamanha alvidez que só
Desejo sentir avidamente o nó
De tua pouca idade a encantar
Tudo o que vivo é, todo o meu sonhar.

Da perfeição és filha primogênita
Dos sonhos a mais viva, à vida sorte.
Louvam, sacros e sábios, finita
Graça que surge rara, do sul ao norte

És tua beleza somente pueril?
Ou considero tua mente gentil?
Sigo eu sem resposta sendo são
E permaneço são à tua visão.

Mas és solenemente mais que bela
E foge, ainda, frígida de meu olhar.
Por que não posso rir sem teu nome clamar?
Pois sua beleza é aos meus olhos cela.

A diferença entre um poema e uma poesia está, muitas vezes numa primeira vista, no tamanho. Compor uma ode exige muito mais tempo, trabalho e amarras estruturais que uma poesia em versos livres, assim, muitas vezes, o pensamento inicial, a poesia, é contraída pela forma, pelas regras, embora ganha-se, exponencialmente, em sonoridade, e em técnica.

Aqui está outra chave aos poemas. Já se conhece o tipo, mas como empregá-lo? Uma Ode cabe majestosamente num ambiente de classicismo, do arcadismo e neoclássico. Uma elégia, por exemplo, é um representante do romantismo, com sonoridade tenra e tema melancólico. Uma écloga cabe ao arcadismo e ao renascimento, com diálogos pastoris e de questão moral. Coloco, à seguir, respectivamente, uma elegia e uma écloga em alemão na qual o Caos e o Tempo apostam com a vida de um camponês, e proponho que contem as sílabas, classificando os versos.

Elégia equinocial
Numa pétrea solidão marcando
Um novo equinócio revelando
Que de sol em só sigo solene
No exílio de afeto perene.
Sigo serene pelo novo ano
A apaixonar-me pelo que amo
Que é sempre igual na fútil dor
Já o ópio que sana traz novo calor.
Calor macio de novidade alva
Os finos traços minha mente salva
Mas são finos distantes sempre de mim
Que admiro só sabendo o fim.
O fim portremo é minha tristeza
Que me atinge com a sutil certeza
Da perpétua beleza lancinante
De minha vida sou só figurante.
Vivendo a outra vaga primavera
Que negros frutos mortos sempre gera
E tristes álgidas mágoas florescem
Quando em mim amor e afogo crescem.

Das unsterbliche Spiel

Gewetten der Zeit und Chaos,
Über einen üppigen sterblichen
Die unsterblichen von oben
Halten Sie Ihre Pawn kostenlos

Solche Person lebte ein Jahr,
So viel im Chaos, so viel in Zeit.
Dann fiel der Zeit schneit,
Weglassen von Pawn die Wahr.

Zeit mit Geschrei befragt.
Oh! Mein dummes Kind.
Werden das Jahr Leben dass beginnt?
Der Letztes war wie Sie vorhergesagt?

Mundhalten mit die Frage
Der betäubte Bürger,
Dafür dass jemand so lünger,
Nur befürchtete Versage.

Aber das Chaos scheitert nie.
Älter als Zeit, Getröstet Weise,
Der Mann, von Angst, leise.
Gewann die Wette irgendwie.

Was war so eine Wettes?
Das gewann das Chaos, Tugend?
Wetteten sie, ewigen, in der Überragend.
In der Zufälligewig des Todes.


Por fim, a poesia que quis passar com o texto é simples. Poema é a foma e técnica com as quais a poesia é grafada. Escrever um poema é arte do tentar, a arte do trabalhar, do talhar o mármore divino com o camartelo, é adequar numa forma e num ambiente, com demasiadas regras, o que o coração sente, o que faz cair as lágrimas, reluzir um sorriso ou incitar um questionamento. Poesia é a arte por si estética filológica. É o bater do coração que sente, é a lágrima que cai e não como cai, é simplesmente vislumbrar o mármore talhado numa forma de Vênus, e, então, suspirar. Não há poema sem poesia, e não é poesia sem a emoção do poeta. Um poeta que sente, um poeta que pensa independente da forma, independente da técnica. Poema ou poesia são quereres de quem é poeta.

Um querer de um poeta.

Um ser poeta, é ser humano,
um ser humano composto e livre,
composto de ideias, e livre de amarras.

É amarrar o mundo a sua volta,
e compor a música da língua.
É ser livre de regras,
humanizar o ser.

Bebemos da fonte histórica.
Comemos na mesa do prazer.
Tragamos o tabaco da física,
gozamos da alegria do poder.

Podemos mutar o momento,
devemos manter a simpatia da língua,
e a desconcertante saliva do saber.
Uns nos amam, outros nos julgam.
Amamos o mundo,
julgamos o querer.



Brincamos com a estética,
brigamos com a lógica,
somos amigos do belo,
e inimigos da ignorância.

Assim nós somos,
indecisos ou concretos,
românticos ou realistas,
mas sempre simbolistas e surreais.

Dançamos com filósofos,
amamos os músicos,
lemos a partitura da vida,
escrevemos a carta da lida.

Nosso trabalho não termina,
nossos operários são anônimos,
nosso capital é abstrato,
nossos capitalistas são edificados.


Edificamos lentamente,
demolimos muito rápido,
calculamos precisamente,
nossa precisão é grega,
nossa demolição, oriental.

Ao horizonte nós tendemos,
de eventos ou cultural,
nada nos escapa,
essa é a nossa luz do querer.

15 comentários:

  1. Olá!! :)

    Eu confesso que nunca tinha lido nenhum dos temas que apresentaste... Fiquei bem agradado com teu texto!

    Texto... Reflexao. Bem, a verdade é que me fez pensar...

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

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  2. Tudo bem? Texto bastante interessante e de interesse atual por conta do meu estudo direcionado.
    Obrigada por compartilhar seu conhecimento.

    Beijos.

    www.alempaginas.com

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  3. Olá!
    Confesso que de todos os gêneros da literatura, esse é o que menos me agrada. Há sempre um grande rebuscamento para que tudo seja compreendido (gosto de coisas mais simples), além de para se escrever os poemas (que aprendi agora que não é MESMO a mesma coisa que poesia). Enfim, achei interessante, pois, mesmo tendo ficado com alguns nós (a partir do momento que entrou matemática no meio das letras kkkk), consegui aprender um pouco sobre essa diferença (e confesso que só quis passar mais longe desse gênero literário kkk).

    Abraços

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  4. Olá Jéssica, nossa, eu não sabia de tudo isso, para mim, se tem rima, eu este estilo de escrita, chamo sempre de poema, sei que é ignorância, ou até mesmo, preguiça de pesquisar, então achei muito interessante a tua postagem, muito enriquecedora intelectualmente, e achei lindos os textos que tu trouxe (menos aquele em outra língua, pois não entendi nada haha)
    Bjos
    Vivi
    http://duaslivreiras.blogspot.com.br/

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  5. oii tudo bem ?
    esse genero não costumo ler muito mais achei bem interessante consegui aprender um pouco apesar de que pra mim achei um pouco confuso. mais irei tenta entender melhor, obrigado por ter compartilhando isso com a gente .

    bjs

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  6. Oiii

    Leio muito pouco poemas ou poesias, já tive uma fase de amar, inclusive tinha um caderno onde anotava várias, mas com o tempo me saturou e hoje leio quase nada, muito raro mesmo. Adorei a explicacão, bem completinha e necessária, pouca gente conhece a diferenca entre poesia e poema.

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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  7. Eu preciso (e muito) sair da minha zona de conforto e perder o medo de ler poemas e poesias (e outros gêneros que sempre torço a cara). Gostei muito da sua publicação, fez eu me sentir mais segura rs e curiosa

    Sai da Minha Lente

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  8. Oi, tudo bem?
    Eu lembro que, quando estudei os gêneros literários, meu professor explicou que poesia é a ideia, a criação na mente do autor. Quando ele passa essa ideia para o papel, já é poema.
    Achei interessante essa explicação que você trouxe, mas confesso que, por ser diferente do que eu havia aprendido até aqui, acabou me confundindo mais haha.
    No entanto, esse é um gênero que não gosto e, talvez, isso explique minha dificuldade maior em entender os conceitos.
    De qualquer forma, ótimo post.
    Beijos!

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  9. Oi, tudo bem? Não conhecia nenhum desses poemas, mas todos são muito interessantes e nos fazem pensar um pouco fora da nossa "caixa pessoal". Eu não tenho o costume de ler muitas poesias, mas quero começar a conhecer um pouco esse gênero literário e ver o que ele reserva para mim.

    Beijos e abraços
    http://vickyalmeida.blogspot.com.br/

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  10. A explicação ficou fantástica, mas vou continuar sem diferenciar as duas coisas. Entendi o básico, eu acho, resumindo poesia = sentimento, poema = técnica; mas nunca na vida que vou parar pra verificar a técnica pra saber se é um poema, mesmo porque dificilmente leio poemas/ poesias. Mas super parabéns pela postagem!

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  11. Lembrei das minhas aulas de literatura, mas nem de longe eram tão atrativas quanto a postagem foi. Parabéns por ter trazido o tópico e esclarecido de forma clara a diferença entre ambos os termos.
    Bjs Rose

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  12. Olá,

    Me senti muito leiga lendo seu post hahahaha, não sou muito fã de poesias e poemas, quando mais nova eu adora é sempre estava lendo algum, mas, atualmente não tanto. Muito bom sua postagem, espero que traga cada vez mais conteúdos bons como esse.

    Beijos,
    oculoselivrosblog.blogspot.com.br/

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  13. Olá, tudo bem?
    Achei seu post bastante instrutivo e interessante, mas eu não consigo me convencer a ler poemas ou poesias, pois não gosto do gênero e da forma como é escrito, mas sei que temos muitos livros novos nesse gênero que têm agradado muito os leitores e eles são, sem dúvidas, complexos e escritos com muito cuidado.
    Adorei sua postagem, vou compartilhar com muitos amigos.
    Beijos,
    https://www.umoceanodehistorias.com/

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  14. Oi Arian, como está?
    Eu já li muitos textos teus e não tem um único que eu ache ruim. Nesse, honestamente, tu se superou porque nunca tinha visto esse ponto de vista e como escritora, acredito que precisamos conhecer a fundo todos os gêneros de escrita e como construi-los, pois sei, já tendo escrito um livro que eu ainda tenho de colocar no Wattpad, como é complicado esse processo.
    Abraços e beijos da Lady Trotsky...
    http://www.galaxiadeideias.com/
    http://osvampirosportenhos.blogspot.com

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    1. (Arian) Muito Obrigado, Renata. Realmente conhecer o que estamos lendo, o que estamos escrevendo, é fundamental. Saber como construi-los é importante, mas escrevê-los é ainda mais vital, mesmo que seja apenas para testar.

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