06/03/2018

[Critica] Sonho Febril - George R.R Martin

Boa Noite!! Hoje nosso colunista Arian trouxe uma critica de um livro bem bacana de vampiros 💀 Então se você curte esse tipo de livro não deixe de conferir a opinião dele abaixo 😉

Sonho Febril: Um livro para se ler do café ao jantar
Hoje venho escrever um pouco sobre o último livro de vampiros – que não o meu – que li. “Sonho Febril” ou “Fevre Dream” no título original. Escrito no início da década de oitenta, por George R.R Martin, e contextualizado nos anos de 1860, “Sonho Febril” é uma obra que permanece atual, e assim continuará, pois não trata de vampiros, trata sobre o próprio tempo.

Ganhei o livro de capa vermelha, e charme visual explícito, de um professor da universidade. Havia poucos dias que tinha publicado meu livro, e pelo apreço meu ao professor de Astronomia de Posição, resolvi dar-lhe um exemplar, visto sua menção sobre gosto por obras de ficção que envolvessem história. Na aula seguinte o professor entregou-me o “Sonho Febril”, e, obviamente, encantei-me de imediato pelo livro, pois é inegável que a arte da capa é a porta de entrada do enredo.

Com meu professor fiz, praticamente, uma troca de livros de vampiros. O meu, ambientado no tempo presente, narrado em primeira pessoa, e o de G.R.R. Martin, ambientado na segunda metade do século XIX, narrado em terceira pessoa, entretanto uma terceira pessoa muito mais agradável do que a responsável por narrar “As crônicas de Gelo e Fogo”.

Mais agradável no sentido narrativo, pois é quase inexistente alguém mais simpático do que G.R.R.Martin, entretanto nas Crônicas de Gelo e Fogo o autor de Nova Jersei não mede esforços, nem limites, num dos pilares de uma ficção: a descrição. Em “A guerra dos Tronos” tive dúvidas se lia uma obra escrita por José de Alencar, ou por um senhor com tendências psicopatas, porque a descrição era tão extensa, tão maçante, que muitas vezes não fazia diferença pular um parágrafo onde um cavalo era apresentado.

Em “Sonho Febril” isso não acontece, mesmo a descrição típica da ficção continuar presente, é uma descrição muito mais fluída, onde a narrativa é permitida criar certa simbiose, mesmo naquela forma clássica de descrição na qual se inicia no passado, e, lentamente, segue-se ao futuro, muitas vezes terminando num tempo mais que perfeito, para semear o fruto do suspense, e é, visivelmente, desta forma que se segue a evolução da obra.

No primeiro capítulo conhecemos a primeira personagem, conhecemos de uma forma fantástica, que pode passar desapercebida, mas que continuará fantástica. A primeira linha da obra começa sem artigo, um substantivo e um verbo extremamente simples: “Abner Marsh deu uma batida de leve com sua bengala de nogueira no balcão do hotel para chamar a atenção do atendente.”

Sem vírgulas, sem marcação de tempo, apenas uma descrição mútua à narração. Em uma frase conhecemos, ao menos de longe Abner Marsh, um homem aparentemente sério, levemente impaciente e de bom gosto, pois para George Martin a primeira impressão de uma personagem pode, muito bem, ser passada com dois verbos, um em cada tempo, um adjetivo auxiliar e dois sujeitos.

Abner Marsh, a despeito de sua elegância, é um falido capitão e empresário de navios. Bronco, meio estúpido, muito guloso, mas com muita, muita, muita, sagacidade e, o principal, honra. Honra, um termo que pode não significar muito mais do que orgulho nos dias atuais, entretanto, na época em que se passa a obra, honra é tão, ou mais, importante que dinheiro, contudo é o dinheiro que cruza o caminho largo e lento de Marsh com o esguio, fluído e belíssimo do vampiro mais angustiante na ficção narrada: Joshua York.

Vemos Joshua York na capa da versão brasileira, realizada pela editora Leya. Um homem aparentemente alto aos padrões norte-americanos, até mesmo aos padrões europeus. De longos cabelos brancos, bem como sua pele alva, sem pelos, enfeitada no rosto po um par de olhos com vislumbres avermelhados, numa feição traiçoeira em seu cortejo com a lapela da cartola. Joshua - Josh -York parece o clássico homem perto dos quarenta que você vê entrando solitário na Sala São Paulo, num sábado à noite, sorrindo levemente com os lábios finos, que você torce para não sentar do seu lado.

Josh York é extremamente frio, calculista, e concentrado, é no decorrer do livro que entendemos o porquê, mas é logo no início que podemos compreender a razão do encontro dos caminhos do capitão falido pelo frio, e do rico inglês. E é entendendo o diálogo de negócios entre ambos que o frio na barriga, o aperto no peito, começa, afinal é um livro com vampiros, e se você ainda não tiver identificado York como um vampiro, por favor, durma e leia novamente no dia seguinte.

York quer um barco à vapor, mas um senhor barco à vapor, tão poderoso que instiga corridas na mente de Marsh, tão grande que crie delírios em que vê-lo, com tanta autonomia que possa cruzar o Mississipi, passando por cada vilarejo, por cada cidade rio acima, rio abaixo. O barco é feito, batizado de Fevre Dream (daí o nome da obra). Fevre Dream torna-se a caruagem privada de um vampiro. Você já está esperando violência, cabeças rolando, sangue escorrendo do rodapé das folhas de cartão supremo 250g/m².

Pode esperar, porque tem, e muito. George Martin não economiza na violência, nas mortes, no sangue, não economizou na versão romanceada da Guerra das Duas Rosas, digo “Guerra dos Tronos”, não tem porquê economizar vidas numa obra de vampiros. É exatamente assim que pensa Damon Julian, o vampiro mais fascinante e dominante que já li, talvez até mais velho que Mencheres da saga “A caminho da Sepultura”.

Damon Julian é simplesmente um orgasmo para quem gosta de vampiros “raiz”, e é nesse clima que o livro começa. Damon Julian, um mestre com vários vampiros discípulos, e um homem -Sour Billy Tipton, acabarão por encontrar York, e os instintos primitivos serão colocados à tona, pois York, em seu autocontrole desenvolveu métodos de controlar a insana sede do vampirismo, ao passo que Damon e seus seguidores a veneram, vampiros pelo sangue.

Entretanto o livro não se chama “Duelo entre vampiros europeus em solo americano”, o livro leva o nome do vapor, comandado por Marsh e uma equipe mista e bem criada. É o barco a personagem principal. O barco representa, talvez, o progresso que subia de acordo com as cidades. O barco que emprega, assalariadamente, seus funcionários, passa por territórios escravistas, levando horror e a mensagem de uma nova forma de produção. É nesse barco que York, um vampiro de linhagem nobre, se recusa a exercer ao domínio cego como Damon Julian, é nesse barco que York tenta mudar o próprio destino de sua espécie.

Espécie, não uma anormalidade mística. Em meus livros os vampiros foram criados por um demônio, em “Sonho Febril” os vampiros sempre existiram, evoluíram como os humanos, com limitações, com habilidades especiais, literalmente, outra raça, então vem o peso da habilidade de G.R.R Martin. Escrever o começo de uma espécie, caçada em todas as formas de fantasia e ficção, assustadora, assustada e imortal como paralelo ao surgimento da espécie humana requer não apenas criatividade, requer coragem, colocar vampiros e humanos num mesmo ramo na década de oitenta é para poucos. Vampiros e humanos não lhe fez refletir muito? Tudo bem, troque a analogia de “vampiros” por “negros”. Toda a obra segue assim, luta de ideias, de paradigmas, de valores.

Damon Julian não tem valores, é tão antigo que só existe, respira e aproveita os prazeres de sua espécie, ao seu ver, superior à humana, manipulando esses, imitando João de Santo Cristo e comendo todas as menininhas da cidade. Porém esse João de Santo Cristo não comprou uma passagem para Salvador, comprou uma para o Fevre, e à bordo deste, o encontro de egos, encontro de mestres, o encontro de ideais se encontra na cena, na minha opinião, mais impactante do universo vampírico.

Na cena em questão, o jantar na grande mesa do vapor, vampiros de Julian, vampiros de York, e Marsh, se reúnem para discutirem como adultos, afinal sair na mão é ato de primitivo. Não há nenhuma explosão na cena, não cai um raio, nenhum dos vampiros se torna um monstro gigante. A força da situação está em seu contexto, nos diálogos, na poderosíssima mensagem que as personagens passam. É improvável não ficar em em choque, olhando ao infinito, após terminar esse capítulo.

É neste mesmo capítulo que o jogo vira, e Marsh se faz indispensável. Lembra da honra? Então, Marsh sim, ele vive nela. Marsh passa, então, a ter dilemas consigo mesmo. Criaturas que não gostam de serem chamadas de vampiros, mas vivem de sangue, poemas e cultura refinada, o significado de amizade e parceria. Abner Marsh é você, o leitor, constantemente aflito, constantemente desnorteado, mas que já escolheu um lado no primeiro capítulo, pois independentemente do tempo você sempre torcerá por York.

É exatamente o tempo a pena guia da obra. Vampiros tão velhos quanto a história humana, instituídos numa sociedade decadente por mais tempo do que deveria suportar. Semanas de espera no trajeto do barco, horas de aflição com capítulos repletos de suspense. Em suas páginas, em suas frases bem elaboradas, mas ao mesmo tempo simples, George Martin cria uma analogia da história humana, usando monstros para atiçar sua angústia, sua aflição. O medo, entretanto, está no escopo, a obra como um todo compõe o terror, os capítulos separados apenas incomodam, pois bem como os vampiros e sua aversão à luz, não é a morte que nos assusta, nem as torturas, ou opressões, é o tempo de cada uma.

12 comentários:

  1. Olá!

    Uau, eu nunca li uma resenha com tanta descrição de personagens e minúcias, por um momento pareceu que eu estava lendo o livro. Impressionada.
    Apesar de eu gostar do universo sobrenatural, acho que não iria gostar do livro, não sei se é o medo de ter muitas dessas descrições, apesar de você dizer que não tem, ou alguma outra coisa, mas dessa vez, deixo a dica passar.

    Abraços

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  2. Tô um pouquinho abismada com sua resenha, queria ser tão rica em detalhes assim, sério! Hahaha imagino a sua felicidade ao ganhar o livro do seu professor, esses momentos são incríveis, né? Nunca li nada desse autor, principalmente pela caracteristica de matar tantos personagens, mas fico que você tenha simpatizado com a leitura.

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  3. Olá!
    Apesar de achar que esse autor é incrível com suas tramas, não consigo me sentir atraída pra ler suas obras.
    Me parece um livro com uma temática diferente e envolvente. Mas gostei de conhecer mais da sua experiência com a leitura.
    Beijos!

    Camila de Moraes.

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  4. Adoro os livros do autor, e o incrível é que ele escreve bem vários tipos de tramas. Não sabia que essa obra era de vampiros, e depois dessa sua resenha tão detalhada confesso que fiquei muito afim de ler. Valeu pela dica!
    beijos
    www.apenasumvicio.com

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  5. Eu não conhecia esse livro ainda do autor e fiquei curiosa com a premissa, eu gosto muito de tramas com vampiros e ache essa muito interessante. Gosto quando o autor não se prende muito em detalhes de como os vampiros surgiram e evoluíram, a não ser que seja pra trazer algo totalmente novo (o que na maioria dos casos não fica tão bom ou quando fica perde-se um bom tempo explicando essas coisas), pelo que vi na resenha, a história parece tão boa que essas informações não fazem falta e se por acaso ele colocasse poderia não me interessar tanto.

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  6. Olá, tudo bem? Alguém aqui precisa abaixar a cabeça porque nunca leu nada do autor, e confesso que não sinto muito vontade não haah sei do hype total sobre ele, e imagino sim que suas histórias estejam a altura do que falam, mas são assuntos que não me são atrativos. Apesar da sua bela resenha, e se tratar de vampiros, acredito que não seja algo que leia tão cedo. Ótima resenha!
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com.br

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  7. Não é uma história que me interessa tanto, e confesso que não sou muito fã do autor, apesar de todo o sucesso que ele faz com seus livros.
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

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  8. Oii!!

    Eu já tentei ler o autor, mas não consegui, a leitura não fluiu tão bem. Mas sobre a resenha, fico feliz que tenha gostado de ler a obra e adorei conhecer sua opinião. Sua resenha está super bem escrita, muito coerente e envolvente. Parabéns!

    Beijinhos,

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  9. Não li nada do autor ainda. Até comprei alguns livros dele, mas por não ter terminado a série, deixei de lado. Quem sabe este não seja o inicio para que eu conheça a escrita dele.
    Bjs, rose

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  10. Oi, tudo bem? Ainda não me interessei pela literatura desse autor, mas confesso que a sua resenha me fez ter uma mega vontade de conferir esse livro! *-* Ainda mais depois que você disse que podemos trocar os vampiros por outros grupos sociais desfavorecidos, fiquei com muita curiosidade para conhecer o manejo dessa sociedade e suas interações. Adorei demais a sua resenha, muito completa e bem escrita, parabéns!

    Love, Nina.
    www.ninaeuma.blogspot.com

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  11. Gosto muito do autor, mas esse livro eu não conhecia.
    E sua resenha está tão bem detalhada que senti necessidade em dar continuidade na leitura e me jogar na trama hahahaha..

    Sai da Minha Lente

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  12. nossa, bem explicadinha sua resenha, adorei a forma como abordou tudo no texto, já conhecia o livro, mas infelizmente, não o livro, o que é um erro de minha parte.

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