19/01/2018

[Critica] Dark (2017)


Bom Dia!! Hoje temos mais uma incrível critica do nosso colunista Arian, então prepare-se para conhecer pelo seu ponto de vista todas as nuncias da série Dark que o faram correr para o Netflix e assisti-la em uma tacada só.

Dark: Conhecendo a BMW das séries de suspense. 

Minha colega Jéssica indicou a série em Dezembro, então estou atrasado, ou quem sabe adiantado, porque Dark nos mostra que o tempo vai mundo além de advérbios. Se você leu o texto sobre "Let me in" deve ter percebido que acabo romanceando, e assim alongando, o comentário sobre as obras. Assim, para Dark, uma série fantástica e demasiadamente complexa, escolhi dividir o texto em duas partes, porque numa BMW não se pega a rodovia antes de rodar o quarteirão. 

Visualize uma BMW. Visualizou? Ótimo, agora eu imagino que tenha em mente o modelo mais clássico da marca alemã: a carroceria sedã oblonga, cujas curvas massageiam os olhos à medida em que a luz do sol poente corre sobre as linhas da carroceria de metal azul escuro, de uma ponta à outra. Você demora sua visão sobre o carro, observa cada detalhe exterior, do acabamento das maçanetas, à finalização das rodas, e assim percebe que o design lhe agrada, lhe conforta muito mais que a agressividade de uma Porsche, ou o conservadorismo de uma Mercedes. Conforta-te a visão da BMW, porque é clássica, quase que numa simbiose com o nome. Assim é Dark, pelo menos à primeira vista.  



Ao dar "play" no streaming você é fisgado pela fotografia crua e certeira. A imagem surge inesperada, e você se depara apaixonado pelos tons pastéis em oposição à fluorescência do que é vivo, do que pulsa à sua vista como as rodas do carro que você visualizou no início do texto. Crua e certeira, eis a estética moderna alemã, que lhe convida a cozinhar com sua bagagem cultural cada quadro, cada linha do sedã típico, que lhe convida a tangenciar as demais marcas do alvo como fez seu olhar com a maçaneta do automóvel. 

As duradouras focalizações no balançar das árvores lhe mostram o vento, o silêncio momentâneo evidencia a chuva a cair, indiferentemente, sobre Widen a cidadezinha perto da França, basicamente sustentada pela usina nuclear ali presente, onde se passa a série. Está construído o primeiro baluarte da obra, está instaurado em você o "onde", mas da mesma forma que ninguém dá a mínima ao chassi da BMW, você não aperta o "ESC" para verificar Widen no mapa, pelo menos não ainda.

Você se aproxima do carro, lentamente e com receio, pois é sabido que talvez ele apite. Você abre a porta e nada acontece, nada sonoro, somente visual, porque você é apresentado ao interior do carro. Passa a mão pelo banco de couro amarronzado, sente os pequenos furos e elevações do banco, mas não teve coragem de sentar, porque se permite apreciar os detalhes em aço escovado, em madeira e muito couro. 

Na série o couro do carro são as personagens, não porque são muitas (e são), mas porque são naturais. Personagens humanos, com a delicadeza alemã de ser, personagens de acordo com sua época, como o couro da BMW, cem por cento naturais, tratado para durar. Nas personagens de Dark você não vai encontrar a exacerbação de sentimentos como nas de anime, muito menos a linha românica teatral dos atores de novelas mexicanas e francesas, onde o sorriso é mais brilhante, o vilão faz jus à etimologia francesa e é propositalmente distorcido fisicamente. Nada nas personagens de Dark é feio, nada lhe dá repulsa, pois são humanos, naturais. Vieram para envelhecer, não revolucionar. E eles envelhecem, afinal, é a pena guia da trama. 



O tempo está em tudo na série, nos dois minutos em que você passou admirando como as árvores do clima Temperado são austeras, ou nos dois minutos em que você ficou passando a mão pelo volante da BMW, procurando onde se liga o carro. Você demora para encontrar o botão "start", da mesma forma que você demora para entender quem é quem, o que cada um quer, e isso é fascinante, pois, 
como a BMW, vocês precisam conversar, se conhecer e resolver as diferenças. Na série você precisa acostumar seu ouvido com o alemão, superar a característica tônica e arranhada das longas frases. No carro você precisa descobrir para que servem tantos botões, talvez um botão coloque legendas, talvez acione a seta. Entretanto um botão você já conhece, e ao apertá-lo é arrebatado com o som do motor. 

O motor de Dark é potente, carismático, e barulhento na medida certa. Em Dark o botão de "Start" é Jonas Kahnwald – interpretado solenemente por Louis Hoffmann, um dos atores mais promissores de língua germânica da atualidade – um adolescente no fim de seu caminho conturbado pelo suicídio do pai, que ao voltar à escola se depara com os desdobramentos do desaparecimento de Erik Obendorf, que você pode assimilar à maçaneta da porta, pois sem ela você não entra, mas ao entrar se torna irrelevante, você nem ao menos se lembra dela, pois tem o motor potente e carismático roncando em seus ouvidos. 

Na BMW o motor é a gasolina – motor elétrico não faz barulho, não tem emoção, é frio e prático como as personagens de "The end of f**king world" –, já em Dark o motor é movido a pai e filho. Todo bom motor é assinado, e o de Dark leva o nome de Mikkel Nielsen, e seu pai Ulrich

O pequeno Mikkel, vivido pelo fofo Daan Liebrenz, desaparece numa caverna a qual foi junto com seu irmão, Jonas e amigos, dando ignição à loucura de um pai à procura de seu filho. Mikkel liga a série, mas é Ulrich que a faz andar, e como toda boa BMW, não anda, desfila. 



Você se encontra desfilando com a BMW pelo quarteirão, o sol poente iluminando seu caminho lento, semáforos e pedestres lhe impelem a parar, muitas vezes. Dark não decola de primeira, porque é perigoso avançar o sinal, e sempre é bom poupar combustível. Bem como a tecnológica BMW, Dark tem função Start-Stop, representada pela mesma engenharia que o liga, somada à muito útil segurança mental. Jonas se dedica à sua reintegração, mas também ao sumiço de Mikkel, aos estranhos fatos envolvendo a morte do pai, mas Jonas é o Start, o Stop vem com Charlotte Doppler, a veemente delegada, mãe de família dedicada, que irá conciliar a pegada potente das investigações, do transtorno de seu detetive Ulrich pelo desaparecimento do filho, com sua vida pessoal, suas filhas e seu casamento falido com o enigmático Peter Doppler

Charlotte é o viés investigativo técnico, Jonas e Ulrich trazem a esportividade do ilegal, do "por conta própria". Já Hannah Kahnwald, mãe de Jonas traz a suavidade das trocas automáticas de marcha, que você, motorista, pode selecionar no modo D, na série D de dramático, em seu papel de amante apaixonada desde criança pelo infiel Ulrich, ou pode selecionar o modo S, e a BMW, digo, a série, vai correr rápido, desconfortável sobre os buracos da pista, quando Hannah do passado encontra Mikkel do futuro, só cuidado! Pise no freio, coloque no P, e estacione um pouco, porque a BMW corre rápido, e a multa é cara. 



O P é Katharina Nielsen, esposa de Ulrich, diretora da escola, aturdida, mas nos eixos, com o sumiço de Mikkel. Katharina é como o "parking" dos carros automáticos: ninguém usa, mas deveria. Você guiando a BMW não vai se entusiasmar ao parar no semáforo, mas vai agradecer a dramaturgia de Jördis Triebel (Katharina), vai se encantar com a capacidade teatral magnífica de uma atriz excepcional, vivendo um papel insosso, mãe de família típica alemã, traída e com o filho desaparecido, mas não se engane, não estás numa novela, você não dirige um Volkswagen, permita-se emocionar-se com a atuação de Jördis, use a posição P. 

Dark tem muitas marchas, se sua BMW tem mais de sete, Dark tem trinta e três, no caso dreiunddreissig será o número mais escutado durante os dez episódios da série, depois do artigo "ein" e suas muitas variações. Dreiunddreissig, pois as narrativas de Dark acontecem separadas de trinta e três anos. Você entrou em 2019, mas conhecerá 1986 e 1953, conhecerá novos modos de direção da 
BMW, novos ajustes do banco, dos faróis e, principalmente, novos caminhos e novas famílias, não tão novas e mais familiares do que se pensa. 

Mikkel sumiu, e você esqueceu de Erik, porque já ligou o carro, já descobriu o modo D, teve o gostinho do modo S, e o volante em suas mãos é muito mais instigante que a maçaneta. O volante é um estranho, com quem você ainda não é familiar. O volante conversa com um relojoeiro com voz de narrador de documentário, o volante conversa contigo, guia Jonas, manipula Ulrich, você vira o volante até o começo de uma estrada, uma grande e longa estrada de dez episódios, na qual o limite mínimo é cento e vinte por hora como em trechos das Autobahns.  



Lá longe, no final da estrada, você descobre que o volante, e o botão de Start têm mais em comum do que parece, porém com uma BMW em mãos você não se importa onde chegará, nem mesmo quando chegará. Dark é como dirigir a BMW que você encontrou parada encarando o pôr-do-sol, depois que ligou não deseja mais parar. Você olha para a estrada e tem dúvidas: até quanto o carro chega? Como é possível viajar no tempo? O que faz esse botão? Lixo atômico e buraco de minhoca têm ligação?  

As repostas você encontrará com o mesmo anseio de acelerar mais e mais a máquina alemã no bom asfalto da estrada. Só não bata o carro, pois assim como a BMW, Dark é o perfeito equilíbrio que te empolga, assusta, encanta e massageia. Dark veio para mostrar a aposta certeira da Netflix. Dark nos mostra que a filmografia alemã é tão boa quanto sua engenharia: feita para acelerar com luxo. 

22 comentários:

  1. Olá, tudo bem? Desde que vi o lançamento dessa série fiquei bem curiosa pra assistir, pois parece ser bem intensa. Adorei saber sua opinião!

    Beijos,
    https://duaslivreiras.blogspot.com.br/

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    1. (Arian) Olá, Larissa. Assista, sim. Intensa do começo ao fim.

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  2. Primeiro: tô abismada. Nunca vi alguém fazer uma crítica tão genial.
    Naquele post da Jéssica indicando 'Dark', lembro-me de dizer que iria assistir assim que possível. Se o fiz? Não. Por puro receio de iniciar algo novo que dura tão pouco e possa me viciar assim como o barulho de um motor. O problema é que sua genialidade de comparar a série com um BMW não me deixa opções a não ser mostrar isso para todo mundo - pausa para bater palmas - e ir correndo assistir. Pode ter certeza que vou lembrar de cada detalhe da comparação durante os episódios - por que uma amante de carros não deixa algo assim passar batido - e tenho certeza que vou ver os episódios loucamente e me arrepender depois por ter sido tão rápido.
    Sua arte como colunista é maravilhosa, parabéns.

    www.nerdabsoluta.blogspot.com

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    1. (Arian) Muito obrigado pelos elogios.Espero que tenha visto, sim.

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  3. Oi!
    Minha mãe assistiu a essa série em um dia, tão viciada ficou. Desde então, estou enrolando para assistir (pura preguiça). Confesso que não entendi algumas coisas da critica por causa da comparação lirica com um carro (apesar de ter achado genial!), pois não entendo nada de carros e muito menos do modelo que fala, nao consegui visualizar e fazer a ponte, mas achei muito criativa sua forma de narrar a série!

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  4. Ainda não assisti a série, mas tenho vontade. Amei a analogia feita com a BMW, achei extremamente criativa e diferente.
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

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  5. Realmente sua resenha ficou pra lá de excelente!
    Eu devorei a série, tenho pesquisado trilhões de teorias por aí na Net sobre o Noah e o final foi tão fodástico quanto frustrante pq agora esperemos rs
    Bjs parabéns pela crítica feita!

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    1. (Arian) A melhor teoria é sempre a sua opinião. Obrigado!

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  6. Oi, tudo bom?
    Eu adorei a resenha, mas fiquei perdida tentando reconhecer partes do carro e associando ao que você escreveu, pois não entendo nada sobre carros, rs. Adorei as fotos, e estou com vontade de assistir já no próximo fnial de semana, pois só ouvi elogios ao enredo e a fotografia da mesma!

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  7. Oii, tudo bem?
    Já comecei a assistir essa série, estou viciada hahaha amo viagem no tempo e ainda estou meio perdida nos mistérios mas sinceramente não quero chegar ao fim. Seu post ficou GENIAL, a comparação com a BMW foi muito boa, eu amei.
    Beijoss!
    Meio Wandinha

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  8. Olá!
    Se eu não conhecesse essa série diria que tenho que conhecer para ontem. Sua postagem está maravilhosa e bem convidativa. Personagens bem elaborados numa trama eletrizante fazem toda a diferença.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  9. Eu devorei essa série e a cada novo episódia minha mente quase explodia tentando decifrar todas as perguntas, mas quando as respostas surgiam eu não conseguia digerir. Ela é fod*, recomendo para todos órfão de Stranger Things.


    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br

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  10. Menina, que resenha maravilhosa foi essa? A netflix deveria te contratar, agora! Hahahah eu assisti só o primeiro ep e fiquei bastante assustada, a fotografia toda é muito misteriosa e me deu medo de ver sozinha, mas pretendo continuar.

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  11. Ola
    Curiosa para assistir, mas como só consigo privacidade para ver certas coisas no sabado então fica dificil, mesmo a série sendo maravilhosa não consigo fazer maratona, é onde demoro para concluir uma série. Acabei de assistir A Louva Deus, e vou terminar de ver Scorpion para depois assisrtir Dark....ufa..kkkkk
    Bjus

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  12. Eu comecei a assistir à série e detestei, sério. Eu estava na maior vibe de Stranger Things, na deprê porque só vai voltar em 2019 e Netflix indicou Dark para os fãs da série. Péssima comparação e não consegui gostar, parei de ver no ep 6.

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    1. (Arian) São séries muito diferentes. A Netflix deu uma escorregada ao comparara-las, a proximidade entre elas fica na fotografia, e nas recordações de anos 80, mas só. São duas obras voltadas para públicos diferentes, com visões totalmente distintas no decorrer da narrativa.

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  13. Primeiro preciso dizer que me perdi completamente na analogia a um carro. Dito isso, ainda não assisti à série, mas está na lista porque parece ser bem bacana e gosto de produções de outros países - apesar da frieza que as produções alemãs costumam ter, mas talvez isso seja um ponto forte na série.

    ;*

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    1. (Arian) Olá, Mia. Acontece, quis fazer uma analogia entre a série e a marca, pois, germânicos em geral gostam muito de carros. Não acho que são frios, pelo contrário, eles são bastantes calorosos, mas não da forma com a qual estamos acostumados. Uma das grandes barreiras é a língua.Levei anos para aprender alemão, mas conforme vamos estudando acabamos entendendo, que, como qualquer língua, o alemão tem um grande papel modelador em seus nativos. Se você se perdeu na analogia com a BMW, tente imaginar o seguinte:
      Alemães são observadores, quietos e focados, esse também é o principal adjetivo da lingua, na qual a negação vem, muitas vezes, no final da sentença, assim eles são obrigados, moldados, a ouvirem o interlocutor até o final, sem interromper, sem supor antes do término da sentença.
      Alemães são taxados como frios, como pragmáticos, aí deixo no ar o fato de que a língua germânica não tem gerúndio, ou seja, é agora, ou já foi, ou ainda vai acontecer, não há um caminho sendo traçado, não há um meio termo, a língua não deixa brechas para você interpretar, exceto na liberdad poética, construir uma afirmação no presente dativo é totalmente diferente de se contruir uma afirmação no presente acusativo, se você muda a declinação do artigo, você muda todo a semântica.
      Alemães não são frios nas ações, eles são sérios nos gestos, e isso se torna muito compreensível com o acostumar-se com a cultura deles.
      Dê uma chance as produções germânicas. Assita "You are wanted" produção de suspense do streaming da amazon. Veja "Die Welle", um drama pautado nas interpretações juvenis do fascismo, da hipnose que esse tipo de governo exerve sobre os países centro-europeus. Assista os clássicos do expressionismo alemão, "Gabinete do Doutor Caligari" "Nosferatu" "Metrópolis""O enigma de Kaspar Hauser", permita-se conhece-los melhor. Eles não são frios, nós brasileiros é que somos calorosos desmedidamente.

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  14. Olá, tudo bem?
    Eu quero muito assistir essa série, mas já estou assistindo tantas, então vou esperar um pouco.

    Beijinhos,
    http://livroseimaginacoes.blogspot.com.br

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  15. Olá!

    Sua resenha ficou muito bem escrita, mas confesso que entendi menos ainda da série, sendo que ela já é complicada. Digamos que sua analogia não funcionou comigo. Pelo apelo que a série tem, provavelmente os episódios são longos, o que não quero no momento, procuro séries com episódios rápidos.

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  16. Essa série é incríveel! Adorei a analogia com a BMW haha, essa é uma série muito complexa e que todos que curtem o gênero suspense e amam viagens no tempo deveriam assistir. Sua crítica ficou ótima e muito bem escrita, bjss!

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  17. nossa, deve ser uma puta série... desde que vi o lançamento fiquei doida pra assistir, mas ainda nao tive tempo. TT_TT
    show de bola esse teu post... obrigada pela recomendação...
    bjs <3

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